“Please, sir, I want some more”, pediu tantas vezes Oliver Twist, o famoso órfão londrino nascido da pena de Charles Dickens, o mestre da literatura vitoriana cujo bicentenário se assinala esta terça-feira. A frase tornou-se "slogan" de uma época pobre, suja e dura para a maioria dos ingleses, que vivam sob a “poor law”, vigente desde o século XIV.
A “lei dos pobres” estabelecia uma espécie de sistema de “apoio” aos desfavorecidos, antecedendo aquilo que é hoje conhecido por "estado social". Consistia em criar abrigos com más condições e racionamentos propositadamente baixos.
O objectivo era cortar pela base a multiplicação de pobres, que assim tinham a escolha: ou morriam rapidamente de fome e falta de condições de higiene nas ruas, ou morriam mais lentamente, pelas mesmas causas, nos asilos. Nenhum dos sítios era pior que Londres – cidade a que Charles Dickens foi parar aos dez anos de idade.
Nascido a 7 de Fevereiro de 1812, em Portsmouth, no sul de Inglaterra, Charles Dickens, ou “Boz”, como era também conhecido, gozou de um imenso sucesso e reconhecimento em vida pela sua extensa obra literária.
Uma aura de mistério não deixou de acompanhar Dickens, um homem aparentemente originário de uma família abastada, que contava histórias de miséria e injustiça social. Na verdade, Dickens passou cedo na vida um "período negro", que o instigou a pegar na caneta e acabou por motivar a temática recorrente na obra.
Até aos dez anos, frequentou colégios privados e viveu entre leituras de Daniel Defoe e “Dom Quixote”. Aos doze, já a viver em Londres, num bairro barato, Dickens foi forçado a sair da escola e a ir trabalhar numa fábrica de graxa, enquanto o pai, que vivera sempre acima das suas possibilidades, foi preso por causa de dívidas. Com a chegada de uma herança, a situação da família melhorou, mas a mãe não o retirou imediatamente da fábrica. O jovem Charles nunca chegaria a perdoar-lhe.
A partir daí, surge o autor como agora o conhecemos. Nas palavras da investigadora Alexandra Assis Rosa, do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, Dickens faz o percurso desde “criança feliz, aluno excepcional, trabalhador infantil numa fábrica de graxa, profundamente infeliz” a “filantropo, pai de dez filhos, homem separado, insone, exausto, mas enérgico, entusiasta de leituras dramatizadas da sua obra”.
Quem não conhece o Oliver Twist?
Alexandra Assis Rosa faz parte da equipa da Universidade de Lisboa que, em parceria com a Biblioteca Nacional, concebeu e montou a exposição "Charles Dickens em Portugal". Desta terça-feira até 10 Março, a mostra vai evocar a recepção de Dickens em Portugal até à actualidade, acompanhada, em simultâneo, por um ciclo de leituras dramatizadas, interpretadas por alunos de pós-graduação da Faculdade de Letras, e uma mostra de cinema adaptado da obra do escritor.
Mas qual o impacto real de Dickens em Portugal? Têm os portugueses o mesmo carinho por ele que, por exemplo, os ingleses? “Charles Dickens é um autor da humanidade, faz parte da literatura mundo”, considera Alexandra Assis Rosa.
“Há um conjunto de personagens que são muito nossas conhecidas. Quem não conhece o Oliver Twist? Quem não conhece o David Copperfield? Quem não conhece o velho avarento do Conto de Natal – a obra mais traduzida entre nós, com mais de 25 edições diferentes?”, questiona a investigadora.
Charles Dickens e as personagens que criou foram muito divulgados entre Portugal por via da tradução. Das 51 obras que se conhecem traduzidas, as edições são em número elevadíssimo. Há traduções portuguesas desde 1839 e existem mais de 183 traduções, todas elas distintas.
Um génio numa época pobre, suja e dura
Na obra “Hard Times, These Times”, Charles Dickens desejava educar os seus leitores acerca das condições de trabalho nas fábricas de Inglaterra. Ao mesmo tempo, o autor queria confrontar o argumento de que a prosperidade surge em paralelo com a moralidade.
A abrir o livro, a citação bíblica: “Aquilo que o homem semear, isso mesmo colherá”. Dividido em três partes, os capítulos de “Hard Times” intitulam-se “Semear”, “Colher” e “Armazenar”, por esta ordem. Para Alexandra Assis Rosa, há aqui uma lição a reter.
“É sempre interessante revisitar as obras literárias, e, falando em 'Hard Times', revisitar também as adaptações, como por exemplo para filme [como ‘Tempos Difíceis, Este Tempo’, de João Botelho, 1988], porque estas propostas artísticas, que criam um mundo paralelo, são incentivos a reflectir sobre a nossa realidade."
Para a investigadora e também professora universitária, “é muito interessante ver que não só nós crescemos com estas personagens no nosso imaginário, como há expressões que entram no nosso uso corrente que nem sonhamos que vêm de Dickens”.
O cavalo inglês
Em meados de Dezembro, Alexandra Assis Rosa reparou que havia várias referências à história do “cavalo do inglês”. A história foi recentemente usada por um líder parlamentar para a comparar com a actual situação dos portugueses.
O que a maior parte das pessoas não sabe é que a história remota às páginas de “Oliver Twist”. A investigadora conta que “o narrador de ‘Oliver Twist’ - e o narrador ‘dickensiano’ é muito irónico - usa esta história como introdução ao sistema que a ama usa para criar as crianças.
Fica a citação da tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, de 1981, das edições Europa-América, a propósito da história do cavalo inglês: "Toda a gente sabe a história do outro filósofo experimental que formulou uma grande teoria acerca de um cavalo poder viver sem comer e que a demonstrou tão bem que reduziu a ração do seu próprio cavalo a uma palha por dia e, inquestionavelmente, o teria transformado num animal muito fogoso e vivo, sem comer absolutamente nada, se ele não tivesse morrido exactamente vinte e quatro horas antes da sua primeira e reconfortante refeição de ar".
Rádio Renascença